Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

Parte 5 - As luzes da cidade velha


- Onde você quer ir donzela? – indagou Joe, conduzindo o carro para fora do estacionamento da escola.
- Onde você me levar.
- Nenhum lugar em especial? Uma colina distante... Uma ponte solitária... Um motel luxuoso...
- Joe! – exclamou Maissa, golpeando suavemente o ombro do rapaz. – Você acha que vai me ter tão facilmente assim? Onde está a sua capacidade de conquista?
Enquanto proferia as palavras, Maissa beliscava afetuosamente o tórax de Joe, no que mais pareciam afagos amáveis.
- Tudo bem, tudo bem. Eu nunca havia duvidado da sua habilidade de aflorar em mim sentimentos que nem mesmo eu conheço. Com você Maissa, eu não consigo ser outra pessoa além do velho e bom Jonathan. Você sabe disso, não é mesmo?
Já estavam tomando as vias principais, e ao que tudo indicava, dirigiam-se para o centro da cidade. As lâmpadas de tons alaranjados dos postes que iluminavam as rodovias traziam à tona uma atmosfera espectral mágica, colaborando para os efeitos especiais.
- Eu acho que sim – respondeu Maissa, aliviando a expressão infeliz que insistia em permanecer em sua face. Evitaria perguntas redundantes se Joe a visse risonha. E quanto ao acerto de contas, - afinal, o rapaz quando esteve ausente se preocupou em apenas enviar alguns contáveis e-mails para a garota – o deixaria para uma outra oportunidade mais conveniente. Se existia um sentimento que Maissa abolia de sua mente, era a impulsividade.
- O que houve que você ficou quieta?
- Nada Joe. Onde estamos indo?
- Você já vai ver. E vai gostar!
Já se localizavam nos becos estreitos da velha cidade, percorrendo-os em baixa velocidade, esquadrinhando-os atentamente. Àquela hora da madrugada, havia uma porção de seres bizarros, os que poderiam ser denominados de “adeptos à vida noturna e afins”, postados em frente às portas do que seriam discos submersas, alisando seus drinques furtivamente.
Joe seguiu alguns metros adiante em uma rua denominada 22, e fez a conversão para a esquerda, entrando no estacionamento de uma velha edificação. Percorreu os imensos corredores circulares que conduziam aos pisos superiores, até chegar ao que seria o último deles, e, aumentando a velocidade para eradicar a monotonia, desviou rapidamente dos pilares que sustentavam o prédio. Joe realmente aprovava o desempenho apropriado de carros esportivos.
- Joe, pare com isso! – gritou Maissa, não podendo evitar o sorriso que lhe atacava os lábios.
- Ok – disse Joe, estacionando o carro na última vaga, de frente para os vidros que revestiam a parede. De onde estavam, podiam ver grande parte de Londres em um ângulo singular, onde a policromia difusa das luzes da cidade proporcionava uma atmosfera única, isentando os olhos do comum tom – de –cinza visto diariamente.
Joe abriu o porta-luvas e retirou um pacote de papel pardo, onde haviam cigarros, e tateou por um isqueiro nos compartimentos do painel. Maissa estava ainda aturdida com a beleza da paisagem, boquiaberta. Inspirou o aroma característico da erva de que o cigarro era feito, e virou-se para Joe:
- Por que isso agora Joe?
- Isso o quê? – respondeu Joe, sugando o baseado fortemente. Joe não compreendia, que muitos de seus vícios adquiridos haveriam de ser revogados naqueles instantes, e por mais que isso fosse uma tarefa árdua, teria de passar a controlar seus instintos insurgentes, afinal, encontrava-se com Maissa.
- Me dá isso aqui – reprovou Maissa, arrancando o cigarro das mãos de Joe, e atirando-o pelo vidro semi-aberto. – Quero você íntegro.
- Mas eu estou íntegro. Viu as luzes? – Joe apontava para o imenso conjunto de pontos brilhantes. Ele colocou seu braço direito atrás dos ombros dela, e a sua outra mão a acariciou no rosto. Joe pode sentir a maciez e suavidade da pele de Maissa e o bálsamo doce que exalava de seus cabelos.
- Esperei tanto tempo por este momento – disse Maissa, com a voz embargada.
- Eu muito mais. Perdoe-me, por tudo.
- Tudo?
- Você sabe. Eu admito que não tenho sido o cara que você tanto esperou, Maissa.
- Dizem que o amor cega, não é mesmo? Não se culpe por nada ainda.
- Não quero magoá-la. Estou diferente...Menos sensível. E eu sei que você não merece isso... O fato é que... - Joe pigarreou. – Não sei se consigo mudar.
- Joe, não há nada de tão absurdo ou errado em você que eu já não saiba.
Joe sorriu. Lentamente, aproximou-se do rosto de Maissa. Naquele momento, poderia jurar ao mundo seu amor pela garota. Ficaria horas encarando a suavidade plácida de seus olhos. A beijou suavemente. Joe sentia a necessidade de tratá-la como uma princesa, pois os fatos eram claros, ela portava-se como uma. Cada palavra proferida docemente, as expressões faciais eram de um brilho e uma formosidade insólitas. Por mais que naquele instante a desejasse como um cão sedento, por mais que sua virilha pulsasse descontroladamente, ele não teria como avançar, pois se houvesse algum olhar de desaprovação que fosse por parte dela, ele sentiria-se culpado para o resto da eternidade. O que estava sentindo? Não sabia ao certo, mas tinha a consciência de que era forte de mais para ser desperdiçado em uma noite casual.
Joe retirou delicadamente seus lábios dos de Maissa, e por impulso olhou pela janela. O homem de preto estava a uns dez metros do carro, encarando-o friamente. Joe sentiu seu coração latejar violentamente, e em um ato imediato girou a chave na ignição. Maissa deu um grito abafado.
- Parceiro, se eu fosse você, eu dava o fora – esbravejou Joe Becker, engatando a marcha à ré, fazendo os pneus do El Camino 77 darem sinal de vida em um grito agudo e ecoante.