Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

Parte 7 - As gotas

Joe submergiu das profundezas de seu pesadelo em um sobressalto. Sonhara que estava em um de seus concertos e que de repente, em um relance à multidão, vira o estranho de vestimenta preta. Ele localizava-se no meio de milhares de jovens que veneravam a banda. O estranho sorrira disfarçadamente para Joe, e naquele lapso de tempo, o rapaz teve a sensação de que havia somente os dois no imenso estádio. De súbito, Joe observou uma forte escuridão irradiar do corpo do indivíduo, cuja aumentava seu raio paulatinamente. Instantaneamente, todas as pessoas que se encontravam no local sucumbiram como pilastras de uma velha edificação. Em meio a todo aquele holocausto, restara intacto somente o estranho, que sorria, satisfeito. Joe ficara estupefato a observar a barbárie diante de seus olhos. Algo escorria de seu nariz, e passando a mão para verificar do que se tratava, Joe constatou que era um líquido viscoso de cor escura, porém indefinida pela penumbra que dominava seus pensamentos. Mais do que nunca, a vontade de esganar o estranho percorreu suas veias, fazendo com que Joe saltasse de onde estava, em direção ao suspeito. Neste momento, tudo se evapora como feitiçaria. Joe encontrava-se em um hotel onde ficaria até dirigir-se ao interior, onde sua mãe morava. Não havia nenhum vestígio de sangue que tivesse escorrido de seu nariz. Lembrava-se vagamente do que ocorrera na noite passada após ter supostamente atropelado o indivíduo de sobre-tudo, e aliviou-se por constatar que realmente tivera levado Maissa para casa, depois de um rápido diagnóstico médico, o qual não apresentou nenhum dano maior que uma leve concussão no lado esquerdo da cabeça.
Joe afastou os lençóis e dirigiu-se para a sacada, a fim de inalar o ar fresco matinal. Enquanto o cérebro custava para organizar as lembranças e enviar corretamente os impulsos nervosos, Joe debruçou-se no parapeito, e fechando os olhos, pôde sentir o sol acariciar seu rosto. Meneou a cabeça por diversas vezes. O que estava acontecendo? Que espécie de perseguição seria aquela? Um maníaco ilusionista talvez? Seriam os efeitos das drogas que insistiam em afetar seus neurônios? Um pingo do que parecia sangue caíra sobre o parapeito. Joe examinou-se nervosamente, não verificando nada de incomum. Novamente, outra gota estatela-se a dois centímetros do lugar anterior. Joe esbraveja um suspiro impaciente. Olhou para cima e notou que as gotas provinham de um cano de escoamento de água, comum nas sacadas dos prédios, pois quando chove, o acúmulo é eliminado por esse recurso. Enquanto Joe realizava o que poderia estar acontecendo, outra gota cai, porém agora o atingindo na cabeça. Por mais que a inércia o dominasse, algo precisava ser feito. Joe ouviu o que pareciam ser sirenes de ambulância aproximando-se do hotel. Dirigiu-se para a mesa de cabeceira e discou o número que chamava a atendente da recepção.
- Bom dia, em que posso ajudá-lo?
- Bom dia, aqui é Jonathan Becker, do 603. Está tudo bem ? Eu estou ouvindo uma sirene de ambulância.
- Desculpe-nos o transtorno, Sr. Becker. Na verdade, um hóspede acaba de ser removido. Ele foi encontrado inconsciente por uma de nossas camareiras.
- Ele estava aonde?
- Estava na sacada de seu dormitório. A equipe médica não apurou nada ainda. O mais estranho, é que brotava sangue de seus ouvidos. O senhor provavelmente deve ter notado algo, pois a pessoa estava no andar superior ao que o senhor se encontra.
Joe pigarreou lentamente. Com a voz embargada, afirmou:
- Não vi, nem ouvi nada. Acordei-me agora, com o barulho incessante da ambulância. Espero que da próxima vez que chamarem por uma, peçam que desliguem a sirene quando estiverem se aproximando de um local de repouso, considerando o horário.
- Perdoe-nos novamente, isso não voltará a acontecer.
Joe pôs o telefone no gancho, não podendo conter a sucessão de espasmos nervosos que atingiam suas mãos naquele instante. Engoliu em seco uma vez. E outra. Fixara olhar em um local seguro dentro do quarto do hotel e daquele modo permaneceria... Pelo menos durante as três horas seguintes.