Parte 8 - O reflexo no espelho
- Mãe. Fecha isso, por favor. - Uma rapida olhada no relógio, uma careta de desaprovação e um pedido:
- Fecha mãe. Fecha logo.
- Maissa, acorde logo. Seu pai está furioso. Se eu fosse você, não pensaria duas vezes em vestir seu roupão e ir falar com ele na sala. Ele a espera. Agora vamos, estou sem paciência para você hoje. - Meu deus! Será que ele descobriu? estou frita! Mais que depressa, ela saltou da cama e se vestiu. Tentou pensar rapidamente em um mini-discurso para falar como ela voltara tão cedo da casa de sua amiga ou algo do gênero. Pensou até em, pela primeira vez, desacatar seu pai. Ela já era adulta e vacinada. Isso basta.. Ela bateu a porta do quarto e já ouviu um forte grito, como se seu pai estivesse com um megafone a 10 centimetros de sua orelha.
- MAISSAAA! VENHA JÁ AQUI. - Ela baixou a cabeça e se dirigiu a sala. Seu pai estava na posição padrão de domingo. Vestia pijamas, com seu chinelo estrategicamente ao lado do sofá, com os pés em cima de um pequeno puff e lia seu jornal preferido. Sem ao menos baixar o que estava lendo, ele começou a falar:
- Me ligaram do hospital municipal. Falaram que você esteve lá ontem a noite. E acompanhada de seu namorado. Um rapaz com longos cabelos negros e com os olhos marejados. Um tal de Jonathan. - Ele abaixo o jornal calmamente, dobra-o cuidadosamente, pois os óculos para leitura no criado mudo a sua direita e fala:
- Você está revendo aquele vagabundo do Joe NOVAMENTE? - então desatinou a gritar - QUANTAS VEZES EU JÁ LHE DISSE PARA NÃO ANDAR COM AQUELE MACONHEIRO? EU JÁ TE DEI UMA SURRA POR ISSO, AGORA VOU TE DAR OUTRA. - Ele tirou então um cinto de trás da almofada, como se ele já tivesse planejado essa cena, levantou-se e puxou Maissa pelo braço, colocando-a em seu colo. Do lado, sua mulher estava como testemunha ocular, sem mover um músculo.
- Para, pai. PARA! - O sangue fervilhava. Lembranças de tempos remotos brotavam na sua mente como um aviso. Ela rolou para o lado, caindo no chão. Chorando, praticamente paralisada, mas como se algo a dominasse, ela deu um tapa no rosto do pai, e saiu correndo para o seu quarto.
Maldito. Foi a ultima vez que isso aconteceu. Juro por deus.
Ela pegou a chave do carro e fugiu pela janela, como já fizera tantas vezes antes. Como eu queria que esse ditador estivesse morto. Eu o ODEIO.
Enquanto isso, Joe estava acordando com uma bandeija de café da manhã super recheada. Sua mãe abriu um tremendo sorriso e mal conseguiu falar.
- Que bom que durmiu em casa! Que visita maravilhosa! - Joe saiu da cama e deu abraço na mãe.
- Não queria te acordar mãe. Desculpe.
- Tudo bem, Jonathan. Coma e vá a sala, para conversarmos.
- Tudo bem, mãe. Já estou indo.
Em menos de 10 minutos, Joe já estava se arrumando, quando sua mãe bateu três vezes na porta, gritando: Joe! Maissa está aqui! Quer lhe falar!
Joe não se conteve de felicidade, mas como era vaidoso, não deixou de dar uma passada no banheiro, para pelo menos ver se seu cabelo estava em ordem. Ele olhou para o espelho e começou a se contemplar. Mas ele começou a notar que seu olhar mudava lentamente. Estava ficando com um tom avermelhado. Logo, Joe não podia ver mais nada, a não ser seus olhos refletidos no banheiro. Era como se ele estivesse num palco. Luz sobre sua face e mais nada. E ele estava vendo isso. Logo, sua face tambem estava mudando. Em vez daquele rosto invejável, estava se tornando num rosto seco, sem graça, branco como a neve, e seu cabelo estava diminuindo. Claro que Joe captou o que estava se passando. Ele era o estranho, ali, naquele banheiro. Não se conteve e exclamou, com um olhar sério e uma fúria bruta.
- O QUE QUER? O QUE QUER DE MIM - É claro que perguntar para um reflexo era loucura. E Joe sabia isso, mas não aguentava mais ver aquele homem aonde quer que fosse. Mas como se fosse um sonho, a imagem respondeu, com uma gargalhada istridente.
- Olhe dentro de você, Joe!
A conversa poderia ter continuado, se não fosse Maissa batendo na porta.
- Joe? Jonathan? Alguma coisa está ocorrendo ai dentro?

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