Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

Parte 10 - A imagem

- Maissa! Maissa! Meu deus! - Joe estava ficando desesperado - Mãe! Vem cá, rapido! - Em menos de quinze segundos a mãe de Joe já estava segurando a mão de Maissa e tentando reanima-la.
- Jonathan, meu deus! As orelhas, dela... Meu deus, estão sangrando! - E era a pura verdade. Um caminho ralo de sangue saia das entranhas da linda Maissa. Joe não entendia. Veio a imagem na sua cabeça do vizinho de cima. Segundo o porteiro de seu prédio, o mesmo havia acontecido com ele na noite passada.
- Joe, ligue para uma ambulância, agora!
Joe levantou rapidamente e foi correndo para o telefone.
- Hospital municipal. Boa tarde. - disse uma voz calma do outro lado do maldito telefone
- Meus deus, moça. Corte as saudações. Minha namorada está passando mal! Mande uma ambulância agora, por favor!
Joe começou então a passar o endereço de sua casa e de repente lembrou que se referiu a Maissa como namorada. Mesmo estando a algumas horas com ela, o seu sentimento era grande. Talvez pela lembrança de quando estava no colégio, ou algo assim. Mesmo enfrentando aquela situação horrivel, esboçou um sorriso.
- A ambulância já está se dirigindo ao local, senhor.
Os enfermeiros adentraram a casa de Joe e retiraram calmamente Maissa. Nem parecia que ela estava sofrendo um ataque. Joe fez questão de acompanhar Maissa.

Algumas horas depois, o famoso cantor já havia sido assediado por pelo menos duas enfermeiras e três pacientes, mas sua cara de preocupação era enorme. Estava nítido que ele estava realmente abalado pela possibilidade remota de Maissa ficar em coma. Ou pior. De repente uma cara conhecida passava pelo hospital. Era o mesmo médico da noite anterior, quando ela havia batido a cabeça. E por coincidência, era o mesmo médio que estava cuidando dela naquele momento.
- Doutor - Joe queria e não queria fazer essa pergunta. Tomou coragem e falou lentamente. - Ela vai ficar boa? Digo, vai se curar?
O médico abriu um sorriso e disse:
- Sim. A causa desse ataque não foi dectada. Porêm ela ficará aqui em observação. Três outras pessoas morreram com os mesmo sintomas em menos de 24 horas.- Joe simplismente apagou todas as outras palavras que sucederam ao sim e já se sentiu aliviado.
- Posso vê-la? - O médico fez que sim e acompanhou Jonathan até o quarto dela. Era um quarto grande, com uma vidraça reluzente que dava pra ver perfeitamente Maissa dormindo, calmamente. Com medo, ele preferiu ficar na porta, enquanto o médico já se dirigia a outro quarto. Joe começou então a imaginar o que ele faria se algo acontecesse a ela, e provavelmente por causa dela. Somente a presença dele fez com que Maissa começasse a se revirar na cama. Ele a olhava com muito carinho.
Mas de repente sua visão mudou de foco. Ele começou a observar atrás de sua imagem fraca no espelho uma outra imagem. Dessa vez tenebrosa. Um homem de óculos, sobre-tudo e muito palido. Era ele dinovo. Joe não sabia como, nem porque, mas era ele dinovo. Joe se voltou para trás, e como se era esperado, não havia ninguem ali. Mas ao retornar o olhar à imagem, lá estava ele dinovo.
- O que você quer? Me deixe em paz, ouviu?
A imagem daquele ser abriu um sorriso e desapareceu. As pernas de Joe tremeram e ele começou a pensar se aquilo era alguma maldição, ou apenas todos cigarros de maconha querendo tomar conta de sua mente permanentemente.

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

Parte 9 - Um baque lento e surdo

Joe examinou-se novamente no espelho, na tentativa de convencer sua mente de que tudo aquilo não passava de um distúrbio emocional. Procurava remeter a culpa à quantidade de baseados que havia fumado, ou até mesmo aos rios etílicos que havia ingerido. No centro de suas indagações, algo lhe dizia que estava errado, e que a possibilidade mais remota ou mesmo absurda não deveria ser revogada...
Fixou o olhar no espelho, e paralisou-se, assistindo seus olhos enrubescerem em segundos.
- Não posso acreditar!- exclamou Joe, borrando o espelho na tentativa de livrar-se da sujeira que havia acabado de fazer. Estava contemplando a sua visão retorcida no espelho que agora se encontrava estilhaçado. Maissa, atenta ao estardalhaço, clamou por Rita, que subia as escadas com uma chave na mão.
- Tome isso, querida. Esta chave abre a porta do banheiro. A tenho de reserva no caso de uma eventualidade – exasperou a mãe de Joe, consternada.
- Obrigada – disse Maissa, aflita.
Maissa encaixou a chave grossa na fechadura, e sem ao menos girar a chave, a porta abriu-se mansamente.
- Desculpem.
- Joe, o que aconteceu com você! Sua testa está sangrando! Vamos logo fazer um curativo nisso meu filho!
Maissa encontrava-se presa à parede do corredor em frente ao banheiro como se fosse o quadro às suas costas. Não conseguia se mover. Suas pernas adormeceram instantaneamente ao presenciar a cena a sua frente. Refletiu aturdida, levou a mão à boca, limpou a lágrima que brotava do canto do olho esquerdo e com o maior assombro possível, dirigiu a mão esquerda a Joe.
- Venha aqui.
Joe deferiu um passo curto, cabisbaixo. Ainda não tivera coragem suficiente de direcionar o olhar a Maissa. Ela não poderia vê-lo daquele jeito. Se ele não entedia o por quê, como explicaria a ela?
- Maissa, não, por favor – proferiu Joe.
O momento nebuloso esmaeceu-se quando Rita apareceu, segurando uma pá de lixo em suas mãos forradas com uma luva plástica. Estendeu à garota uma bolsa com suprimentos de primeiros - socorros.
- Maissa, por favor, leve Joe para o quarto que eu cuido disso tudo.
- Tudo bem, Sra. Rita.
Maissa segurou o braço nu de Joe, e conduziu-o ao quarto. Enquanto percorriam o corredor, nenhuma palavra ousou ser discorrida. Joe ainda cabisbaixo sentou-se na cama, como se toda a gravidade conspirasse contra sua nuca. Maissa ergueu o rosto de Joe suavemente, afastando o maço de cabelos ensopado de sangue. Caminhou até o banheiro e umedeceu o pano que se encontrava na bolsa de primeiros – socorros. Retornou ao lado de Joe, que insistia em manter os olhos fechados, - ora por vergonha, ora por medo – e passou o pano suavemente pelo corte na testa.
- Ai! – exclamou Maissa, na tentativa de quebrar o ar gélido que permeava. – Me avise quando doer.
Joe continuava calado. Sentia uma imensa vontade de gritar, e uma fúria incessante o dominava, como se estivesse com as mãos atadas sendo apunhalado lentamente, sem nenhuma chance de reagir. Tudo estava confuso. Estava mais que confuso, e sim absurdo. Embora tudo estivesse ocorrendo particularmente com ele, Joe não encontrava um possível discernimento, muito menos uma remota solução. Tinha a leve sensação de que veria aqueles olhos azuis – antes tão vivos e vigorosos, naquele instante eram como as águas turvas do oceano, sem definição – pela última vez.
- Tem algo que você queira me contar Joe? – indagou Maissa, calmamente, abrindo um pacote de gases.
- Eu não sei o que está acontecendo. Estou me sentindo estranho.
- Olhe pra mim agora, Joe.
Joe relutou ao máximo fixar os olhos na garota. De algum modo, sentia que podia prejudica-la, e isso o injuriava.
- Joe, olhe pra mim, por favor!- gritou Maissa, desesperada. – O que está acontecendo? Assim não posso aplicar o curativo!
Joe suspendeu a cabeça lentamente. Maissa riu baixinho.
- Está bem, agora abra os olhos.
Joe pôde sentir os lábios quentes de Maissa tocando os seus. Naquele instante, uma terrível vontade de chorar o assolara. Engoliu em seco diversas vezes. Abriu os olhos lentamente, com a intenção de contemplar aquele momento, e compartilhar seu ardor com a garota. Encontrou os olhos de Maissa.
- AAHH!- Maissa berrou. Levou as mãos à cabeça e caiu, em um baque lento e surdo.

Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

Parte 8 - O reflexo no espelho

- Mãe. Fecha isso, por favor. - Uma rapida olhada no relógio, uma careta de desaprovação e um pedido:
-
Fecha mãe. Fecha logo.
- Maissa, acorde logo. Seu pai está furioso. Se eu fosse você, não pensaria duas vezes em vestir seu roupão e ir falar com ele na sala. Ele a espera. Agora vamos, estou sem paciência para você hoje. - Meu deus! Será que ele descobriu? estou frita! Mais que depressa, ela saltou da cama e se vestiu. Tentou pensar rapidamente em um mini-discurso para falar como ela voltara tão cedo da casa de sua amiga ou algo do gênero. Pensou até em, pela primeira vez, desacatar seu pai. Ela já era adulta e vacinada. Isso basta.. Ela bateu a porta do quarto e já ouviu um forte grito, como se seu pai estivesse com um megafone a 10 centimetros de sua orelha.
- MAISSAAA! VENHA JÁ AQUI. - Ela baixou a cabeça e se dirigiu a sala. Seu pai estava na posição padrão de domingo. Vestia pijamas, com seu chinelo estrategicamente ao lado do sofá, com os pés em cima de um pequeno puff e lia seu jornal preferido. Sem ao menos baixar o que estava lendo, ele começou a falar:
- Me ligaram do hospital municipal. Falaram que você esteve lá ontem a noite. E acompanhada de seu namorado. Um rapaz com longos cabelos negros e com os olhos marejados. Um tal de Jonathan. - Ele abaixo o jornal calmamente, dobra-o cuidadosamente, pois os óculos para leitura no criado mudo a sua direita e fala:
- Você está revendo aquele vagabundo do Joe NOVAMENTE? - então desatinou a gritar - QUANTAS VEZES EU JÁ LHE DISSE PARA NÃO ANDAR COM AQUELE MACONHEIRO? EU JÁ TE DEI UMA SURRA POR ISSO, AGORA VOU TE DAR OUTRA. - Ele tirou então um cinto de trás da almofada, como se ele já tivesse planejado essa cena, levantou-se e puxou Maissa pelo braço, colocando-a em seu colo. Do lado, sua mulher estava como testemunha ocular, sem mover um músculo.
- Para, pai. PARA! - O sangue fervilhava. Lembranças de tempos remotos brotavam na sua mente como um aviso. Ela rolou para o lado, caindo no chão. Chorando, praticamente paralisada, mas como se algo a dominasse, ela deu um tapa no rosto do pai, e saiu correndo para o seu quarto.
Maldito. Foi a ultima vez que isso aconteceu. Juro por deus.
Ela pegou a chave do carro e fugiu pela janela, como já fizera tantas vezes antes. Como eu queria que esse ditador estivesse morto. Eu o ODEIO.

Enquanto isso, Joe estava acordando com uma bandeija de café da manhã super recheada. Sua mãe abriu um tremendo sorriso e mal conseguiu falar.
- Que bom que durmiu em casa! Que visita maravilhosa! - Joe saiu da cama e deu abraço na mãe.
- Não queria te acordar mãe. Desculpe.
- Tudo bem, Jonathan. Coma e vá a sala, para conversarmos.
- Tudo bem, mãe. Já estou indo.
Em menos de 10 minutos, Joe já estava se arrumando, quando sua mãe bateu três vezes na porta, gritando: Joe! Maissa está aqui! Quer lhe falar!
Joe não se conteve de felicidade, mas como era vaidoso, não deixou de dar uma passada no banheiro, para pelo menos ver se seu cabelo estava em ordem. Ele olhou para o espelho e começou a se contemplar. Mas ele começou a notar que seu olhar mudava lentamente. Estava ficando com um tom avermelhado. Logo, Joe não podia ver mais nada, a não ser seus olhos refletidos no banheiro. Era como se ele estivesse num palco. Luz sobre sua face e mais nada. E ele estava vendo isso. Logo, sua face tambem estava mudando. Em vez daquele rosto invejável, estava se tornando num rosto seco, sem graça, branco como a neve, e seu cabelo estava diminuindo. Claro que Joe captou o que estava se passando. Ele era o estranho, ali, naquele banheiro. Não se conteve e exclamou, com um olhar sério e uma fúria bruta.
- O QUE QUER? O QUE QUER DE MIM - É claro que perguntar para um reflexo era loucura. E Joe sabia isso, mas não aguentava mais ver aquele homem aonde quer que fosse. Mas como se fosse um sonho, a imagem respondeu, com uma gargalhada istridente.
- Olhe dentro de você, Joe!
A conversa poderia ter continuado, se não fosse Maissa batendo na porta.
- Joe? Jonathan? Alguma coisa está ocorrendo ai dentro?

Sexta-feira, Janeiro 21, 2005

Parte 7 - As gotas

Joe submergiu das profundezas de seu pesadelo em um sobressalto. Sonhara que estava em um de seus concertos e que de repente, em um relance à multidão, vira o estranho de vestimenta preta. Ele localizava-se no meio de milhares de jovens que veneravam a banda. O estranho sorrira disfarçadamente para Joe, e naquele lapso de tempo, o rapaz teve a sensação de que havia somente os dois no imenso estádio. De súbito, Joe observou uma forte escuridão irradiar do corpo do indivíduo, cuja aumentava seu raio paulatinamente. Instantaneamente, todas as pessoas que se encontravam no local sucumbiram como pilastras de uma velha edificação. Em meio a todo aquele holocausto, restara intacto somente o estranho, que sorria, satisfeito. Joe ficara estupefato a observar a barbárie diante de seus olhos. Algo escorria de seu nariz, e passando a mão para verificar do que se tratava, Joe constatou que era um líquido viscoso de cor escura, porém indefinida pela penumbra que dominava seus pensamentos. Mais do que nunca, a vontade de esganar o estranho percorreu suas veias, fazendo com que Joe saltasse de onde estava, em direção ao suspeito. Neste momento, tudo se evapora como feitiçaria. Joe encontrava-se em um hotel onde ficaria até dirigir-se ao interior, onde sua mãe morava. Não havia nenhum vestígio de sangue que tivesse escorrido de seu nariz. Lembrava-se vagamente do que ocorrera na noite passada após ter supostamente atropelado o indivíduo de sobre-tudo, e aliviou-se por constatar que realmente tivera levado Maissa para casa, depois de um rápido diagnóstico médico, o qual não apresentou nenhum dano maior que uma leve concussão no lado esquerdo da cabeça.
Joe afastou os lençóis e dirigiu-se para a sacada, a fim de inalar o ar fresco matinal. Enquanto o cérebro custava para organizar as lembranças e enviar corretamente os impulsos nervosos, Joe debruçou-se no parapeito, e fechando os olhos, pôde sentir o sol acariciar seu rosto. Meneou a cabeça por diversas vezes. O que estava acontecendo? Que espécie de perseguição seria aquela? Um maníaco ilusionista talvez? Seriam os efeitos das drogas que insistiam em afetar seus neurônios? Um pingo do que parecia sangue caíra sobre o parapeito. Joe examinou-se nervosamente, não verificando nada de incomum. Novamente, outra gota estatela-se a dois centímetros do lugar anterior. Joe esbraveja um suspiro impaciente. Olhou para cima e notou que as gotas provinham de um cano de escoamento de água, comum nas sacadas dos prédios, pois quando chove, o acúmulo é eliminado por esse recurso. Enquanto Joe realizava o que poderia estar acontecendo, outra gota cai, porém agora o atingindo na cabeça. Por mais que a inércia o dominasse, algo precisava ser feito. Joe ouviu o que pareciam ser sirenes de ambulância aproximando-se do hotel. Dirigiu-se para a mesa de cabeceira e discou o número que chamava a atendente da recepção.
- Bom dia, em que posso ajudá-lo?
- Bom dia, aqui é Jonathan Becker, do 603. Está tudo bem ? Eu estou ouvindo uma sirene de ambulância.
- Desculpe-nos o transtorno, Sr. Becker. Na verdade, um hóspede acaba de ser removido. Ele foi encontrado inconsciente por uma de nossas camareiras.
- Ele estava aonde?
- Estava na sacada de seu dormitório. A equipe médica não apurou nada ainda. O mais estranho, é que brotava sangue de seus ouvidos. O senhor provavelmente deve ter notado algo, pois a pessoa estava no andar superior ao que o senhor se encontra.
Joe pigarreou lentamente. Com a voz embargada, afirmou:
- Não vi, nem ouvi nada. Acordei-me agora, com o barulho incessante da ambulância. Espero que da próxima vez que chamarem por uma, peçam que desliguem a sirene quando estiverem se aproximando de um local de repouso, considerando o horário.
- Perdoe-nos novamente, isso não voltará a acontecer.
Joe pôs o telefone no gancho, não podendo conter a sucessão de espasmos nervosos que atingiam suas mãos naquele instante. Engoliu em seco uma vez. E outra. Fixara olhar em um local seguro dentro do quarto do hotel e daquele modo permaneceria... Pelo menos durante as três horas seguintes.

Quinta-feira, Janeiro 20, 2005

Parte 6 - Corpos desaparecem

Um homem alto. Alto o bastante para chegar a metade da alta pilastra que segurava o teto daquele último andar. Vestia um sobre-tudo preto colado no corpo, uma bota de exército de cor igualmente fúnebre e óculos negros como a noite. Essa a visão que Maissa teve, depois de dar um carinhoso beijo em Joe.
- Parceiro, se eu fosse você, eu dava o fora.
- Calma Joe! - interceptou Maissa, com seu jeito cativante - É apenas algum maluco da cidade. Deixa pra lá.
No mesmo momento, Jonathan engatou a marcha e acelerou com tudo aquele lindo carro. Maissa pensava que ele estava agressivo e queria partir pra cima do tal estranho.
- Eu já vi esse babaca no meu show hoje a noite! - ele colocou uma ênfase naquele pronome possessivo que parecia que ele tinha tocado todos instrumentos sosinho. - Ele deve estar me provocando, não sei porque!
O medo que Maissa sentira passou. Joe não estava indo em direção ao estranho, e sim para o lado oposto. O carro então desceu as rampas circulares com uma velocidade muito acima da permitida. Quando chegou ao nível da rua, Joe acelerou bruscamente o carro, fazendo com que sua potência levantasse uma imensa nuvem branca Joe só teve tempo de olhar no retrovisor e ver aquele ser macabro, com olhos vermelho-sangue, dentre a nuvem densa de fumaça.
- Mas que diabos!? - Ele indagou. - Como pode ser tão rapido?
Maissa tentou olhar no retrovisor, olhou para trás, mechendo a cabeça de um lado para o outro, mas nada pode ver. Apenas a mesma nuvem. Acho que Joe bebeu muito mais do que eu pensei. Por um momento essa triste constatação poderia ser valida. Se fosse isso, era apenas ela tomar o volante que tudo ficaria bem. Mas Joe havia apenas bebido um copo de vodka no camarim, e nem tinha tragado naquele baseado. Joe suava muito para aquelas condições climáticas em que se encontravam. Maissa estava ficando realmente preocupada. Ele estava atônito, olhando para todos os cantos da rua. Estava muito ofegante e a cada cruzamento de vias, ele acelerava mais o carro.
- Calma, Joey! Vá com calma! - Num sopro de desespero, aquele apelido fez efeito sobre a mente perturbada de Joe. Ele olhara pro lado e abriu um sorriso, enquanto diminuia as marchas do carro.
- Desculpe. Acho que vi coisas.
- Tudo bem. Mas não corra, por favor. - Mesmo com o carro em movimento, ele se inclinou pro lado dela e seus lábios se tocaram gentilmente. Joe voltou com os animos redobrados para a direção. Mas do outro lado da rua, encostado no poste, estava alguem muito branco. Ajustando as vistas, fazendo força com os olhos, Joe pode ver: era o mesmo cara.
Não pensou duas vezes, acelerou o carro como nunca e seguiu reto. Maissa não parava de berrar do seu lado, mas ele não conseguia prestar atenção nela. Estava confuso. Decidiu então fazer uma conversão a esquerda. Olhou para a direita, para ver se nenhum carro estava vindo, e, acreditem ou não, lá estava, em pé, a mesma figura horripilante. Joe não podia acreditar, Ele apenas berrava a cada aparição daquela "coisa". Maissa não entendia. Pois ela não via nada (ou não queria ver).
- MEU DEUS - Joe berrava - O QUE ELE QUER DE MIM?
- calma Joe! CALMA! - Todos afagos e tentativas eram em vão. Joe estava indo tão rapido que o potente motor estava dando sinais de cansaço. A cada esquina, a figura se repetia, como se ele se teletransportasse, ou fosse alguma brincadeira de mau gosto. O cerébro de Joe entrara em colapso. Imagens daquele dia estavam rodando sua cabeça. Desde a imagem de Ed o acordando, ao reencontro com maissa. Essas lembranças só foram cortadas quando Joe ouviu um forte grito:
- CUIDADO JONATHAN! CUIDADO!.
Tarde demais. O carro havia atropelado alguma coisa. Essa coisa ainda havia batido no teto e rolado pela traseira, até se encontrar com o asfalto gelado. Joe recuperou a consciência na hora e colocou todo o volante para esquerda, enquanto pisava no freio. A cabeça de Maissa bateu na porta, com força. Parada total.
- De..de...de...me deculpe! Oh, meu deus, me desculpe! Você está bem? - o desespero dele era notável.
- Acho que sim. Só estou confusa. - A voz de Maissa estava mole, fraca. - No que será que batemos?
- Não faço idéia. Vou olhar.
Joe abriu a porta do carro, ainda meio zonso. Olhou para o lado e viu que o motor estava soltando muita fumaça. Droga. nem é meu carro! Foi andando lentamente ao meio da rua, onde estava um corpo. O corpo vestia preto, totalmente. Desde suas botas a um sobre-tudo colado no corpo, e um óculos, a alguns metro do corpo, todo quebrado.
- Meu deus! É o mesmo cara! É o mesmo estranho! Como isso? - Neste momento, ele colocou suas duas mãos na cabeça, em sinal de desespero. Pensou que ele podia estar morto, e se dar muito mal por isso. Deu mais uma olhadela no corpo o notou que a pele branca estava ficando roxa. Estava morto, com certeza. Olhou para trás, e viu que Maissa estava dentro do carro, com a mão na boca. A batida deve ter sido forte. Ela está toda tonta, coitada. Não tinham mais o que fazer, a não ser constatar o estado do atropelado.
Joe se curvou em frente ao corpo, perplexo, com uma mão no rosto e a outra segurando seu enorme cabelo. Parou por segundos, pensando no que ele faria caso fosse acusado de homicídio. Tomou coragem e girou o corpo. Pois os dedos em sua jugular e apenas aconteceu o que ele temia: Não havia o menor sinal de pulso. Lágrimas correram pela bochecha branca de Joe. Ele olhou pra baixo, em sinal de desespero, e olhou para trás, para ver se Maissa tinha saido do carro. Mas algo estranho aconteceu.
Quando ele voltou a olhar o corpo, teve uma surpresa.
- Mas.. mas como isso!?
No lugar do corpo, estava apenas um sobre-tudo preto, impecável. Parecia estar passado. Logo abaixo, havia um par de botas deitadas no chão, e mais pra frente havia um par de óculos, intácto, com a lente novinha, e limpa. O corpo parecia ter desaparcido. Aquilo era muito pra pobre cabeça drogada de Joe. Como um corpo desaparece tão rapido?
- IMPOSSIVEL! - ele gritou, mas após segundos de reflexões, ele constatou: sem corpo, sem crime.

Rapidamente ele se levantou e correu para o carro.
- Maissa. não batemos em nada, não tem nada lá atrás. - Achando que ele estava mentindo, Maissa olhou pelo retrovisor pra ver se tinha alguma coisa. Conseguiu ver algo que pareciam botas, só isso.
-Atropelei um par de botas! - disse Joe rindo da própria ignorância, tentando amenizar o clima dele com ela, afinal, ele fora o culpado dela ter batido a cabeça na porta.
- Vou te levar pro hospital, Má! - Ela fez que sim com a cabeça, e eles começou a andar lentamente pela rua deserta.

Decidiu olhar pelo retrovidor para ter certeza que o corpo não estava lá. E não estava. Estava totalmente aliviado, tão à vontade que resolveu olhar no espelho para ver sua aparência. Não podia chegar com sinais de drogas ou bebidas em um hospital
Joe virou totalmente o espelinho superior do carro, enquanto Maissa estava de olhos fechados ao seu lado. Ele notou que sua aparência estava condinzente à ocasião. Mas algo mudará. Seu olhar, que era tenro e "gentil", agora estava agressivo. Mais do que isso. Reluzia uma cor forte. Vermelho-sangue, para ser mais exato.

Quarta-feira, Janeiro 19, 2005

Parte 5 - As luzes da cidade velha


- Onde você quer ir donzela? – indagou Joe, conduzindo o carro para fora do estacionamento da escola.
- Onde você me levar.
- Nenhum lugar em especial? Uma colina distante... Uma ponte solitária... Um motel luxuoso...
- Joe! – exclamou Maissa, golpeando suavemente o ombro do rapaz. – Você acha que vai me ter tão facilmente assim? Onde está a sua capacidade de conquista?
Enquanto proferia as palavras, Maissa beliscava afetuosamente o tórax de Joe, no que mais pareciam afagos amáveis.
- Tudo bem, tudo bem. Eu nunca havia duvidado da sua habilidade de aflorar em mim sentimentos que nem mesmo eu conheço. Com você Maissa, eu não consigo ser outra pessoa além do velho e bom Jonathan. Você sabe disso, não é mesmo?
Já estavam tomando as vias principais, e ao que tudo indicava, dirigiam-se para o centro da cidade. As lâmpadas de tons alaranjados dos postes que iluminavam as rodovias traziam à tona uma atmosfera espectral mágica, colaborando para os efeitos especiais.
- Eu acho que sim – respondeu Maissa, aliviando a expressão infeliz que insistia em permanecer em sua face. Evitaria perguntas redundantes se Joe a visse risonha. E quanto ao acerto de contas, - afinal, o rapaz quando esteve ausente se preocupou em apenas enviar alguns contáveis e-mails para a garota – o deixaria para uma outra oportunidade mais conveniente. Se existia um sentimento que Maissa abolia de sua mente, era a impulsividade.
- O que houve que você ficou quieta?
- Nada Joe. Onde estamos indo?
- Você já vai ver. E vai gostar!
Já se localizavam nos becos estreitos da velha cidade, percorrendo-os em baixa velocidade, esquadrinhando-os atentamente. Àquela hora da madrugada, havia uma porção de seres bizarros, os que poderiam ser denominados de “adeptos à vida noturna e afins”, postados em frente às portas do que seriam discos submersas, alisando seus drinques furtivamente.
Joe seguiu alguns metros adiante em uma rua denominada 22, e fez a conversão para a esquerda, entrando no estacionamento de uma velha edificação. Percorreu os imensos corredores circulares que conduziam aos pisos superiores, até chegar ao que seria o último deles, e, aumentando a velocidade para eradicar a monotonia, desviou rapidamente dos pilares que sustentavam o prédio. Joe realmente aprovava o desempenho apropriado de carros esportivos.
- Joe, pare com isso! – gritou Maissa, não podendo evitar o sorriso que lhe atacava os lábios.
- Ok – disse Joe, estacionando o carro na última vaga, de frente para os vidros que revestiam a parede. De onde estavam, podiam ver grande parte de Londres em um ângulo singular, onde a policromia difusa das luzes da cidade proporcionava uma atmosfera única, isentando os olhos do comum tom – de –cinza visto diariamente.
Joe abriu o porta-luvas e retirou um pacote de papel pardo, onde haviam cigarros, e tateou por um isqueiro nos compartimentos do painel. Maissa estava ainda aturdida com a beleza da paisagem, boquiaberta. Inspirou o aroma característico da erva de que o cigarro era feito, e virou-se para Joe:
- Por que isso agora Joe?
- Isso o quê? – respondeu Joe, sugando o baseado fortemente. Joe não compreendia, que muitos de seus vícios adquiridos haveriam de ser revogados naqueles instantes, e por mais que isso fosse uma tarefa árdua, teria de passar a controlar seus instintos insurgentes, afinal, encontrava-se com Maissa.
- Me dá isso aqui – reprovou Maissa, arrancando o cigarro das mãos de Joe, e atirando-o pelo vidro semi-aberto. – Quero você íntegro.
- Mas eu estou íntegro. Viu as luzes? – Joe apontava para o imenso conjunto de pontos brilhantes. Ele colocou seu braço direito atrás dos ombros dela, e a sua outra mão a acariciou no rosto. Joe pode sentir a maciez e suavidade da pele de Maissa e o bálsamo doce que exalava de seus cabelos.
- Esperei tanto tempo por este momento – disse Maissa, com a voz embargada.
- Eu muito mais. Perdoe-me, por tudo.
- Tudo?
- Você sabe. Eu admito que não tenho sido o cara que você tanto esperou, Maissa.
- Dizem que o amor cega, não é mesmo? Não se culpe por nada ainda.
- Não quero magoá-la. Estou diferente...Menos sensível. E eu sei que você não merece isso... O fato é que... - Joe pigarreou. – Não sei se consigo mudar.
- Joe, não há nada de tão absurdo ou errado em você que eu já não saiba.
Joe sorriu. Lentamente, aproximou-se do rosto de Maissa. Naquele momento, poderia jurar ao mundo seu amor pela garota. Ficaria horas encarando a suavidade plácida de seus olhos. A beijou suavemente. Joe sentia a necessidade de tratá-la como uma princesa, pois os fatos eram claros, ela portava-se como uma. Cada palavra proferida docemente, as expressões faciais eram de um brilho e uma formosidade insólitas. Por mais que naquele instante a desejasse como um cão sedento, por mais que sua virilha pulsasse descontroladamente, ele não teria como avançar, pois se houvesse algum olhar de desaprovação que fosse por parte dela, ele sentiria-se culpado para o resto da eternidade. O que estava sentindo? Não sabia ao certo, mas tinha a consciência de que era forte de mais para ser desperdiçado em uma noite casual.
Joe retirou delicadamente seus lábios dos de Maissa, e por impulso olhou pela janela. O homem de preto estava a uns dez metros do carro, encarando-o friamente. Joe sentiu seu coração latejar violentamente, e em um ato imediato girou a chave na ignição. Maissa deu um grito abafado.
- Parceiro, se eu fosse você, eu dava o fora – esbravejou Joe Becker, engatando a marcha à ré, fazendo os pneus do El Camino 77 darem sinal de vida em um grito agudo e ecoante.

Parte 4 - "Vamos sair daqui!?"

1.
- Você realmente mudou! - Joe disse, extremamente surpreso. Sempre desejará ter Maissa em seus braços. "O que a fama não faz, não é mesmo!?". Joe estava errado. Se fosse menos voltado para seu próprio mundo, poderia ter abraçado e beijado Maissa muito antes de sua fama. Mas tímido do jeito que era, e com todos seus complexos, ele nunca percebera.
- Mudei nada! Não lembra desta saia? - Realmente era a mesma saia que Maissa havia usado na ultima vez em que se encontraram, à caminho do aeroporto, quando Joe estava indo para Holanda, gravar seu primeiro CD, com profissionais de primeira linha.
- Oh! Você tem razão! - Joe então começava a se lembrar (apesar de estar ainda um pouco zonso, por causa da bebida) do tempo em que convivia com Maissa. Eram agradáveis tardes pós-colégio na qual ela ia a sua casa lhe ensinar matematica. Se lembrará tambem que ela sempre ia embora muito antes das seis da tarde. Toda afobada, ele nunca entendia, mas tudo bem. Até que um dia, quando conversavam pela primeira vez sobre relacionamentos (e algumas fofocas), ela viu no relógio que já eram 6:10. Entrerá em desespero e fora embora. No dia seguinte, ela faltou ao colégio (coisa que nunca fazia), e dois dias depois estava usando um grande e feio óculos escuros.
- Não vai me dizer que seus pais ainda te tratam.... - Joe nem precisou terminar a frase. O que ele temia se concretizou. Maissa olhou para baixo e fez levemente que sim com sua cabeça.
- Jonathan. O que mais posso fazer? Tenho medo deles.
Joe pensou em falar muitas coisas. Mas a maioria ia ser uma repetição. Quantas tardes ele já havia falado sobre isso com ela, e nunca adiantou nada. Ele poderia falar coisas novas. Dar conselhos. Pensou até em convida-lá a se juntar a equipe e fugir com ele. Mas vendo que ela abrirá um sorriso, preferiu deixar tudo de lado e beijou-a novamente. "Vou aproveitar a noite, assim como meus amigos". Mike e Ed já estavam praticamente nús (assim como suas respectivas amantes-por-um-dia) e Ethan já estava transando, ali mesmo, com a sua.
- Parece que somos os únicos aqui que estamos conversando, não é mesmo!? - Ele disse, agarrado a ela, com seus braços entrelaçados nas costas de Maissa.
- Podemos dar um jeito nisso. - Maissa riu com um ar de prazer. Nunca havia falado disso para ninguem.

2.
- Ei galera. Olha aquele cara ali, parado! Que esquisito!
- Vamos aloprar ele! O show já acabou a duas horas e ele está sosinho na porta do ginásio! - Mal sabia eles o que esse comentário poderia proporcionar para eles. Quatro garotos, típicamente de preto e cabelos grandes estavam voltando para casa, e tiveram que passar novamente por onde haviam passado a noite. - Foi um show do caralho! - exclamou um deles, com seu usual linguagear "moderno".
Encostado num poste, quase que imóvel, com o olhar fixo para a entrada do ginásio, estava um homem. "Que cara branquelo, parece até albino" pensou um deles. Um homem estranho. As duas da manhã estava usando um óculos escuro, que nem de lado dava para ver seus olhos. Vestia tambem um sobre-tudo rente ao corpo e uma bota preta, muito bem engraxada. "Mais um poser riquinho da região" constatou um outro rapaz.
- Ei cara - disse o mais alto deles. Um brutamontes, gordo e embreagado. Falou com uma voz grossa e apontou o dedo em direção ao estranho. - O show já acabou! - Todos riram incessantemente. Provavelmente o efeito da bebida.
- Malditos adolescentes. Nunca aprendem que não devem mecher com estranhos na rua!?
Todos pararam de rir. O coração de alguns deles começou a bater mais rápido. Menos o do brutamontes, que ainda soltou uma risada falsa. Por ter pelo menos o dobro de peso que o estranho, resolveu enfrenta-lô. Poderia ser uma boa historia para se contar aos amigos na segunda-feira.
- Hahaha! Você deve estar muito bêbado para falar assim comigo. Acho melhor você retirar o que disse, ou estará com problemas.- O homem nem respondeu. ficou estático. Parecia que era protegido até pelo vento, pois seu sobre-tudo nem se mexia. Após alguns segundos, o brutamontes resolveu insistir:
- Ei cara, você é surdo? Retire já o que você disse.
Nada. A mesma reação. O brutamontes olhou pra trás. Um dos amigos levantou os ombros querendo dizer "essa nem eu entendi". - Vai pra cima, gordo! - Disse o mais baixinho deles. Provavelmente um sanguinário louco por brigas, que por causa de seu tamanho nada avantajado, usava seu amigo para isso.
"Gordo" levantou os braços e foi pra cima do cara. Estava desferindo um golpe que seria capaz de ferir, e muito, um lutador de boxe. Ele era muito forte. Mas quando sua mão já estava muito perto do nariz do estranho, uma força parecia repelir o seu braço. Ele ficou estático. Poderia jurar até que seu coração estava parado. Abaixou os braços, olhou para sua mão e se preparou para um novo golpe.
- Vamos embora, gordo! Esse cara é sinistro!
Fingiu não ouvir , e dessa vez, desferiu o golpe. Mas sentirá a mesma força no seu braço, como se estivessem o puxando. O golpe praticamente não havia acertado o estranho, que estava na mesma posição: de braços cruzados, encostado no poste. O único efeito de sua fúria foi um óculos caido no chão.
O estranho então se virou. Ou melhor, virou apenas sua cabeça. Acompanhando seu movimento, todos os jovens notaram, com horror, os olhos daquele ser. Eram estranhos. Eram inteiramente vermelhos. Vermelho-sangue, para ser mais exato. No lugar de sua "bola preta", havia uma silhueta forte, como um diamente, mas tambem vermelho. Era tão forte que parecia ter luz própria. No mesmo momento, os três adolescentes começaram a correr como nunca haviam corrido na vida, em direção a casa onde iriam passar a noite. Todos menos "gordo", que parecia estar enfeitiçado.
O estranho somente se abaixou, desencostando do poste, pegou seus óculos e o colocou novamente. Virou-se rapidamente, movimento esse que fez seu sobre tudo se levantar, fazendo o tipo de uma onda, e começou a andar ao encontro da densa vegetação que fazia parte do colégio, e desaparecerá na escuridão.
Tudo que havia sobrado era um enorme corpo, ajoelhado. Com, o olhar fixo na escuridão. Timpanos estourados e muito sangue, providos da orelha, nos ombros e coxas. O corpo então cambaleou para frente. Tudo que se pode ouvir foi um enorme barulho. Naqueles enrormes pulmões, não entravam mais ar.

3.
Após aquele maravilhoso reencontro, Joe considerava Maissa muito mais que uma "amante pós show". Não queria transar com ela como seus amigos estavam fazendo, naquele momento, sem pudores. Queria uma coisa mais particular. Pensou nisso e somente pode falar uma coisa.
- Vamos sair daqui? Posso arranjar um carro.
- Claro - Os dois se entreolharam e deixaram escapar um sorriso. Joe não precisou nem de dois minutos para ter um molho de chaves em mãos, e os dois começaram a andar em direção a saída, escoltados por um segurança mau encarado. Quando chegaram no carro, Joe fez questão de abrir a porta para Maissa. "Quem diria que no fundo desse ser havia alguem tão cavalheiro". Ela pensou, já dentro do carro. O motor foi acionado, e o carro agora se encontrava em movimento. Maissa pensou em Clara, a amiga que havia deixado quando foi chamada ppara entrar no camarote.
- Ah! Ela sabe o caminho de casa!.
- Ham!? O que você quis dizer com isso? - Joe disse
- Nada, Joey, nada. - Soltou um olhar malicioso e colocou a mão esquerda encima da perna dele.
- Odeio esse nome. Simplimente odeio.

Terça-feira, Janeiro 18, 2005

Parte 3 - (Continuação) Volúpia reanimada


Maissa Strawford era o que poderia se chamar de “garota ideal”. Na escola, sempre fora bem aplicada, e embora sua timidez propiciasse uma certa reclusa, nunca deixara de expor seus adágios e considerações da forma mais coerente possível, o que por muitas vezes fazia os professores intimidarem-se. Vira de uma família conservadora, do tipo “ditadura disfarçada”, e de modo algum, reivindicara por rebeliões. Adaptara-se àquele estilo de vida submisso, não por que fosse uma garota sem aspirações; muito pelo contrário; Na verdade, uma de suas últimas intenções seria magoar a mãe, a qual sofria de uma moléstia irreversível. Por vezes tentou pedir auxílio ao pai, que trabalhava dia e noite em um local nunca revelado, e de fato, tamanho sigilo e repressão fizeram com que Maissa acidentalmente descobrisse o refúgio diário de seu pai. O Sr. Strawford trabalhava em uma companhia de transporte, onde caixotes escuros de madeira em quantidade imensurável amontoavam-se em caminhões velhos e pequenos. Maissa nunca esqueceria a tremenda bronca que levara de seu pai aquele dia. Muito menos os hematomas taxados em seu corpo límpido. Por essas e outras razões, a garota desejava intensamente mudar de vida. Haveria esperança?
- Por favor, só por hoje à noite! – exasperava Maissa, segurando fortemente o braço da vizinha Clara, a qual havia tentado inúmeras vezes invalidar a idéia absurda que a garota insistia em manter.
- Você sabe que é perigoso Maissa. E se de repente seu pai chega? Como faço? O que digo para encobri-la? – proferiu Clara, limpando a gota que percorria sua testa. – Acho que é se arriscar muito por um garoto que você não vê há tempos. Você já pensou na hipótese de ele nem lembrar mais de você?
- Impossível. Ele nunca esqueceria de mim. Isso eu lhe garanto. E preciso de você agora mais que nunca. Faria isso por mim?
Maissa lançou seu olhar perdido e implorador – característico de sua personalidade em situações desesperadoras -, na esperança de convencer a amiga a observar sua mãe na noite em que reveria alguém muito especial. Talvez, uma das pessoas mais peculiares que havia encontrado em toda a sua vida. Mesmo que ainda contasse 18 anos.
Após inúmeras tentativas longe de alcançarem algum êxito, Clara cedeu às vontades de Maissa, a qual já se encontrava em uma arquibancada do ginásio, sentindo-se meio deslocada em meio aos corvos dançantes. Rever Joe Becker seria uma surpresa e tanto. Quando ele subiu ao palco, Maissa pode sentir seu coração tocar levemente sua garganta, e uma agonia impertinente a dominou. Era o seu Joe. E estava lindo como nunca. As mãos brancas e trêmulas de Maissa não conseguiam de modo algum encontrar o repouso. A emoção que a domava naquele instante, trazia uma série de sentimentos que há muito tempo haviam sido trancafiados, em algum local escondido dentro de seu coração. Maissa queria gritar, espernear, e desejou mais que nunca ser fluorescente, para que Joe a pudesse ver. Quando o fim do show se aproximava, um certo rapaz com o cabelo espetado se aproximou de Maissa, a fazendo recuar a ponto de quase cair.
- Sabe que você é tremendo broto? – disse o garoto, avaliando calmamente Maissa.
- Sabe que você poderia me deixar ao menos assistir ao final do show?
- Para quê assistir ao show daqui, de longe... Quando você pode assistir ao show de pertinho, mas pertinho mesmo... Topa?
- O que você está querendo dizer?
- Se você vier comigo, vai ver.
Maissa, sem pensar duas ou três vezes como faz de costume, agarrou a mão do rapaz, que a levou por uma passagem sombria, atrás da arquibancada onde estava. Quando o túnel tempestuoso mostrou seus primeiros feches de luz, a garota percebeu que se encontravam atrás do palco, em um corredor que abrigava uma ala de pequenos cômodos, sendo que um deles, destacava-se por conter uma pequena estrela vermelha adornada à porta. O rapaz bizarro abriu a passagem, e fez menção para que ela entrasse.
- O que quer dizer isso? Por que me trouxe aqui?
- Logo você verá. Peço que aguarde alguns minutos – disse o garoto, que percorreu o corpo de Maissa em um longo e desejoso devaneio.
O rapaz saiu, e Maissa dirigiu-se à porta, na tentativa de encontrar algum bebedouro de água e saciar sua sede. Ao final do corredor, havia um. Ela seguiu até lá, sorrindo ao ouvir o som abafado que provinha do palco. Esgueirou-se para a bica, e de repente, sem ter tempo para devagar o que seria, sentiu um frio intenso e cortante na espinha. Virou-se rapidamente para o lado e observou um homem de costas, vestindo um sobretudo preto, flutuando lentamente para o fim da fileira de portas. Absorveu-se de sua fantasia avaliativa, quando um grupo de três garotas entrou na sala onde há pouco ela estava. Riam demasiadamente, o que se poderia convir que estavam embriagadas até o dedão dos pés. Maissa reuniu-se a elas, que a observaram com um ar censurado. O rapaz que as havia buscado retornou, e as conduziu em direção a uma porta escura. Abriu-a lentamente, deixando que cada garota passasse por ela. Maissa foi a última a entrar, parte por que estava com dúvidas, parte por que tremia de medo. Toda aquela energia obscura que a dominava dissipou-se velozmente. Joe encontrava-se de costas, admirando-se ao espelho.
- Joe – disse Maissa timidamente.
- Não acredito! – exasperou Joe. – Maissa? Maissa? Maissa!
- Oi – proferiu Maissa, sorrindo.
Ela pulou sobre Joe, entrelaçou as pernas em seu quadril, e beijou-o ardilosamente. Joe a agarrou como um leão protegendo sua caça. Pode sentir a rigidez das pernas da bela garota, e em um devaneio instantâneo, percebeu como Maissa estava linda, longe de ser a garotinha acanhada que por muitas vezes resolvia a maioria de seus problemas com uma simples e inteligente conversa. Porém, em meio a toda aquela energia explosiva e lúbrica que brotavam de seus corpos, a última coisa que pensariam em fazer nas próximas horas, seria dialogar.

Parte 3 - Eventos inesperados acontecem.

1.
Joe nunca iria acreditar que alguma vez, na sua vida, fosse tão almejável a ponto de um grande público - antes composto de pessoas que lhe tiravam sarro e lhe colocavam apelidos - gritavam incessantemente seu nome. Ele se sentia um rei. Meninas que na sua época colegial nem olhavam para ele, agora estavam esperando que, por algum milagre, Joe as escolhessem em meio a multidão e as levassem ao seu camarim. Uma dessas garotas sempre quiserá ter algo com ele. Não por que o achava atraente, físicamente, mas ela sempre o achara "um amor". Conversaram por anos, mas se afastaram. Ele viajava muito.
O show acontecia como o planejado. Poucas pessoas machucadas, desmaiadas ou afins, e os seguranças contratados não tiveram o menor problema, apesar deles estarem aflitos com aqueles jovens realmente esquisitos. No final da ultima melodia, a gritaria era tanta que mesmo gritando ao microfone, nem mesmo os próprios integrantes da banda podiam ouvi-lô. "inacreditavel" Ele pensou, com a certeza de que todos músicos haviam pensado a mesma coisa. Abriu novamente o braço na horizontal, e como se fosse um rei (ou Deus), resolveu esperar os aplausos terminarem. Demorou r, mas valeu a pena. Joe estava mais confiante que qualquer um naquela noite.
O show acabara. Era hora de escolher as garotas que iriam "conhecer" naquela noite. A banda inteira se dirigiu rapidamente ao camarim improvisado, e comemoraram como nunca aquela volta a cidade da rainha.
- Estou sem palavras - Mike disse, com uma voz rouca, porêm entusiasmada..
- Então não diga nada e me dê um abraço - Ethan emendou. A face de todos da banda e da produção denunciavam um éxito fora do comum. Conquistaram, ali mesmo, um país em meio a guerra, ou o final de um campeonato disputado. Mas uma coisa estava estranha. Joe estava mudo (ele nunca estava quieto, o que fez os olhares de todos se voltarem a ele) e parecia estar perdido em meio ao seus pensamentos. "Qual que é Joey?" - disse Ed com ironia (sabia que seu amigo odiava esse nome). "Vamos comemorar!". Com sua enorme cabeleira caindo suavemente pela sua testa, fez que sim com a cabeça, ajeitou o cabelo na sua orelha com a mão, abriu um sorriso e andou em direção a Mike e Ethan, que ainda estavam se abraçando.

2.
- Ei amigo! Você não pode andar por aqui! Não sabe ler? - uma voz grave, firme, e com um certo sarcamos falou alto, e ecoou naquele imenso corredor. Era um policial, imenso de altura e de largura. Talvez o mais alto daquela região.
Uma cabeça se virou, e conseguiu ler, em palavras garrafais logo do seu lado uma placa "PROIBIDA A PERMANÊNCIA DE ESTRANHOS". Ele vestia preto. Desde o sobre-tudo rente ao corpo, ao óculos escuros (o que intrigara muito o policial) e sua bota preta. Sua pele, extremamente branca delatava sua descêndencia. Era tão branca que até reluzia naquele corredor apagado de uma escola colegial.
- Desculpe. Parece que eu estou perdido. Aonde é o palco?
O policial certamente estranhou. O ginásio era do outro lado da escola. "Mais um espertinho tentando chegar o camarim" pensou, balançando a cabeça, colocando a mão na cintura. Com um certo de olhar de reprovação, ele falou: - Dê a volta, vire a esquerda e saia do colégio. Entre pela parte sul do colégio. É facil achar, está escrito GINÁSIO bem grande.
Sem nem responder, o rapaz de estatura mediana se voltou e começou a andar lentamente. Mas o policial estava estranhando. Como se fosse um pequeno
flashback, ele se lembrou claramente de fechar, com uma grossa corrente as portas da entrada norte do colégio. Começou a andar rapidamente atrás do estranho, colocou a mão em seu ombro e disse, lentamente, porêm com um tom típico de policial. O mesmo que seus pais usavam para te dar bronca.
- Como você consegui.... - o policial então se curvou. Sentiu um forte estampido em seu timpano. Colocou suas mãos rapidamente no local atingido e constatou que havia sangue. Muito sangue. Não conseguia intender. O moço estava andando, nem olhará pra ele. Não podia ser tiro, muito menos uma porrada.
- Eu consigo o que eu quero - Uma voz grave, como se fosse a de um demônio surgiu em sua cabeça. Seus timpanos estavam feridos, não poderia ter ouvido aquilo. Um devaneio, talvez, mas isso nunca poderá ser constatado. O policial estava morto. Ajoelhado, com as mãos sobre sua coxa e os grandes olhos negros perdidos na escuridão. Seu cerébro não mais pensava e seu coração não mais pulsava. O jovem nem olhou para trás. Andou por segundos pelo corredor, com o som de suas botas ecoando no longo e deserto colégio e desapareceu na escuridão.

3.
Mesmo com a comemoração, Joe não conseguiu parar de pensar naquele estranho que víra. "Muito, muito estranho". Só parou de pensar nele, quando um do seus
holdies abriu a porta, com um sorriso maior que o de Ed (que tinha uma boca enorme) e gritou, elevando os braços, fazendo com as mãos um cortejo: - Senhoras! Entrem por favor! - e depois ele a fechou, com força. Quatro garotas, com olhares perdidos, piercings e sombra escurissímas nos olhos abriram a boca e mal podiam acreditar:que iriam realmente trepar com seus ídolos. As fans endoidecidas, que já haviam planejado o ataque antes, foram correndo, cada um para um lado diferente, em encontro de seu "amante". Quatro lindas garotas, com certeza. Mas uma delas se destacava. Talvez pela falta dos piercings e roupas escuras (estava vestindo uma blusa grossa e uma saia não muito moderna), ou talvez pela suas curvas exuberante, seu cabelo vermelho-fogo ou suas sardas no rosto. Ela, ao invés de correr, andou lentamente, com um sorriso timido na boca, ao encontro de Joe, que já estava entornado um copo de Vodka, se admirando ao espelho. Ele se virou, meio zonso pelo forte gole que derá. Mas o reconhecimento foi imediato.
- Não acredito! - exclamará, quase gritando.

continua...

Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

Parte 2 - O estranho sob o refletor


Londres era definitivamente uma cidade estranha, considerando o sentido intrínseco da palavra. Joe sorveu um copo de água, a fim de reciclar a sua voz, ou por outro lado, manter a displicência perante os amigos da banda, os quais já se encontravam amontoados na última coxia do palco, na tentativa de aguardar o sinal de liberação, que seria dado pelo resplandecer das luzes coloridas que circundavam a estrutura. Era a hora de entrar.
O público estremecia de uma forma excedida. Cada componente entrou, um a um, e se posicionou no seu respectivo instrumento. Quando o baque surdo da bateria de Mike anunciou o inicio da música, uma atmosfera crepuscular invadiu o ginásio da escola. Os jovens batiam os pés nas arquibancadas ritmicamente, como em uma orquestra, onde o coral obedece fielmente ao maestro. Os primeiros acordes da guitarra de Ed relampejaram. Havia uma porção de meninas na parte frontal do palco, vestindo camisetas pretas inscritas o nome da banda. Dançavam como bruxas na tenebrosa Salém, aos pares, roçando seus bustos uma nas outras. Restavam alguns segundos para o inicio do canto, quando Joe entrou, acenando para o público que estremecia. Na verdade, todos achavam Joe uma figura e tanto, sem exceção de admiração, tanto por parte das mulheres (as quais o consideravam realmente um gato), como pelos homens, que tentavam copiá-lo, haja vista a influência do rapaz. Não era nada raro ver alguns meninos com longos cabelos negros, vestindo preto e óculos escuros em plena luz da lua, afinal, era tempo de Blackenings, e não se poderia desperdiçar a temporada da banda na cidade, e nem tão pouco ignorar a tamanha extensão de sua popularidade.
Joe cantou ardilosamente. Vibrava a 220 volts. Estava com uma disposição e tanto, a qual fez Ed ignorar todos os pensamentos importunados que manteve sobre Joe até então, reconhecendo que apesar do garoto antecipar o que seria um desastre – haja vista seu estado físico e psicológico – Joe sempre arranjava uma maneira de fazer as coisas acontecerem. E de uma forma reconfortante.
Joe enquanto cantava, esquadrinhava o público lentamente, parte por que gostava de sentir a vibração intensa das pessoas, parte por que admirava a centena de garotas que pronunciavam seu nome desesperadamente. Ele acenava sorridente para as tentadoras Cinderelas, e as desejava ferozmente, tendo consciência que, se quisesse uma noite apenas, a teria, em um piscar de olhos. Na pausa entre uma música e outra, Joe direcionou-se para a extremidade esquerda do palco, a fim de recobrar seu fôlego, achando a solução em um belo e transparente copo de Vodka. Acenou positivamente para Mike, e tocou na mão de Ethan, o baixista, no caminho de volta. Colocou as duas mãos no pedestal do microfone, alisou-o minuciosamente. Em sincronia com o estrondo da bateria, abriu os braços na horizontal, e respirou o ar maníaco que exalava dos pulmões da platéia, que reconhecendo a melodia da canção, já se adiantavam.
- Eu quero ouvir vocês! – berrava Joe, retirando os óculos e sorrindo para o brado ardente das garotas, que aprovavam qualquer uma de suas ações, desde uma pequena sacudida nos cabelos, a uma singela batida da perna esquerda no chão.O conceito de Joe sobre a peculiaridade de Londres se consolidou quando a luz de um refletor que iluminava a platéia postou-se por acaso em um homem, que estava localizado no lado esquerdo do aglomerado central, próximo ao palco. O estranho chamou a atenção embriagada de Joe pelo seguinte: estava imóvel, e considerando o clima da época, - quente e febril – o homem estava vestindo um sobre - tudo preto, longo e extremamente alinhado, convindo com seu corpo como se fosse uma segunda pele. Era de estrema palidez, e a sua ação inerte era de fato intrigante, uma vez consideradas as circunstâncias. Joe fixou seu olhar no estranho por cerca de uns 4 segundos, desviando-se para uma roda tumultuada de adolescentes que insistiam em chocarem-se uns contra os outros. A tamanha curiosidade de Joe não o liberou tão facilmente. Voltou o olhar para o local onde estava o homem, e não o encontrou. Onde fora o Esquisito? Joe retirou o microfone do suporte e caminhou para a extremidade esquerda. O homem desaparecera. Ao menos que fosse um fantasma, não poderia locomover-se tão rapidamente em meio àquela solidez de pessoas, que mal detinham espaço para respirar. Esse pensamento explodiu na mente de Joe, evaporando-se, afinal, era hora de cantar o refrão de Please love, be patient, uma das canções que fazia o êxtase comedido transpirar na pele da multidão.

Parte 1 - Encontrando sua identidade

- Joe? Joe? você está bem, cara? - Uma forte respirada, um olhar perdido e uma constatação:
- A noite foi boa, pelo menos? - Joe Becker disse.
- Pra chegar ao ponto que você está, deve ter sido. - uma longa pausa, e uma mudança praticamente imperceptível no tom de sua voz, Eduard continuou - Vamos. Faltam quase três horas para o show.

Jonathan Becker era uma pessoa comum. Pelo menos até o fim da puberdade. Sempre viveu nas asas de sua mãe, e talvez a falta do pai, que ele não conheceu(como se fizesse alguma diferença) , fez com que ele mudasse repentinamente. "Nada de faculdade. Não para você, Joe" - ele constatava para si, praticamente todos os dias. A velha (pelo menos era assim que ele chava sua mantenedoura) já estava acustumada com sua índole. Mas nunca esperava que isso realmente fosse acontecer. "Meu Joey é meio rebelede. Mas ele toma jeito, você vai ver" - Sempre dizia sua mãe, para suas vizinhas fofoqueiras. Ele odiava que lhe chamassem de Joey.
Prestes a completar dezoito anos, Eduard e ele se encontram por acaso, no refeitório do colégio. Becker (como era chamado no colégio) estava sem dinheiro para pagar o lanche. Ed pagou. Ele não sabe até hoje porque, mas achou que deveria.Ed pertencia a formação original da banda "the blackening". Banda de metal extremo, com ensaios regados a entorpecentes, vodka e mulheres. Logo depois do almoço, Joe foi chamado para o ensaio. Na semana seguinte, tomou coragem (coisa que fazia com frequência. Parar e se encorajar) e resolveu ir sosinho a pequena "festa" que era o encontro daquela banda.
- Entre! por favor! - Os olhos vermelhos de Ed denunciavam seu gosto por "plantas exóticas" - Galera! Esse é o Jonathan! - A galera mal respondeu. Uns estavam drogados, outros embregados, beijando ou desmaiados mesmo.
- Ei Jonathan, pega um cigarro ali naquela caixa, ou a bebida na geladeira e ouve a gente.
Joe acendeu um cigarro, para não parecer deslocado, e de repetente ouviu a musica mais pesada que já lhe passará pelos tinpanos. "Muito diferente das bandas que minha mãe ouve". A banda estava ouvindo um CD na velha disqueteira do pai de Eduard. Joe ficou maravilhado. Minutos depois, a banda estava tocando a mesma canção, mas algo estava errado: não tinham vocalista. Pararam a musica, e decidiram dar um tempo. Tempo perfeito para que Joe ficasse totalmente embreagado. Uma voz ao fundo o chamava. Por um momento pensou que era a voz de seu falecido pai, mas logo percebeu que era apenas Eduardo: "Alguem ai pode cantar pra gente? só hoje!?"
O resto é deduzivel. Jonathan tinha um dom. Não precisaram nem tocar a musica inteira para ele estar "contratado" pela banda. Em menos de três meses, seu guarda roupa estava mudado, assim como sua cabeça. A banda ganhou fama. Dedicação e trabalho fizeram dela a banda mais conhecida de sua cidade: Londres (apesar de nunca terem feito um grande concerto lá). "Me orgulho, e muito" dizia sua mãe, mesmo sabendo de seus vícios e reprovando o tamanho do seu cabelo. "Nem começa, mãe. O cabelo é a alma do meu personagem". Apesar de tudo, seus cabelos eram a coisa que ele mais cuidava. Muito mais até que sua voz, seu fígado ou até mesmo sua vida. Eram negros como o breu das vielas da velha cidade.

- Por quanto tempo fiquei desacordado? - Joe disse, coçando o nariz e tentando limpar a roupa manchada.
- Cinco horas. Talvez seis. - O olhar de reprovação da banda era nítido. Aquilo estava indo longe demais.
- Três horas para o show, então? - Todos fizeram com a cabeça que sim. Ed estava feliz naquele dia, apesar do vocalista de sua banda ter exagerado - denovo - Ele estava feliz de voltar a velha Londres e tocar para todos amigos do colegial.
Após muito nervosismo, garrafas de Whisky vazias (afinal, o dinheiro tambem melhorou o nível da bebedeira) e muita gritaria dos fans, eles ouviram o que sempre queriam ter ouvido, após cinco longos anos longe fora de casa:
- O que VOCÊS esperavam realmente ACONTECEU! Diretamente da VELHA cidade. The BLACKENING! - O apresentador do show era realmente estranho. de duas em duas palavras, dava uma ênfase estupida a uma palavra qualquer. "Pelo menos tem estilo" foi o que Ed sussurou para Joe. "com certeza, Ed. Com certeza".